[{"data":1,"prerenderedAt":140},["ShallowReactive",2],{"page-\u002Fqualia\u002Fcerveja-na-taca":3},{"id":4,"title":5,"body":6,"description":12,"extension":130,"meta":131,"navigation":132,"path":133,"published-at":134,"rawbody":135,"seo":136,"stem":137,"written-at":138,"__hash__":139},"content\u002Fqualia\u002Fcerveja-na-taca.md","Cerveja na taça",{"type":7,"value":8,"toc":126},"minimark",[9,13,16,19,22,25,28,31,34,36,39,42,45,48,51,54,57,60,63,66,69,72,75,78,81,84,87,90,93,96,99,102,105,108,111,114,117,120,123],[10,11,12],"p",{},"O radinho de pilha com entrada USB exaltava, pela quarta vez seguida, a noite feliz pela voz de algum coral infantil carioca. Dava para perceber a origem do grupo pelo feliz chiado. No centro da sala o pequeno pinheiro brilhava, apagado, em meio ao clima do recinto. Dezenas de LEDs lutavam contra a escuridão da sala, forçando vermelhos, amarelos e azuis contra a alma da mulher que deitada em seu sofá tomava cerveja na taça. Afinal, era essa a composição prima do natal, transformar toda e qualquer ação em um ato especial, assim, a cervejinha migrara do copo de vidro mal lavado para a taça empoeirada. Especial. Tal composição destoava do ano novo ao passo que o objetivo do dia 31 era criar prelúdios para o ano novo: só se limpar com papel higiênico branco para que as cagadas feitas no ano que vem sejam de paz. Ao findar da música o silêncio tomou conta da sala e ali ele fez moradia por longos minuto. O relógio cuco de parede fez seu trabalho. Meia-noite declarada. Oficialmente Natal.",[10,14,15],{},"— Parabéns Jesus — Levantou a taça de cerveja. — Eu traria um pouco de água pra você fazer sua mágica, mas não gosto de vinho.",[10,17,18],{},"Riu sozinha de sua ironia, um riso triste que nasce da solidão, mais especialmente daquela regada a álcool, que sim, é um tipo especial de solidão a ser estudado. Talvez a pesquisa venha de alguma universidade americana para posteriormente ser divulgado como fato desconhecido no Facebook. Novamente um som invadiu a sala e como matéria sendo lançada no vácuo a onda de partículas vibrantes se espalhou soberana.",[10,20,21],{},"A vida é feita em sua essência de duas coisas: escolhas e clichês. Não necessariamente nessa ordem. Assim, ela escolheu não atender a campainha para não passar pelo clichê “Oie vizinha, feliz natal! Deus te abençoe. Sabe, estamos cortando o peru, mas, olha que engraçado, a nossa faca tá cega. — risada forçada não correspondida pela interlocutora, seguida por um silêncio desconfortável — Então, tem uma faquinha ai pra emprestar”",[10,23,24],{},"Pareceu melhor ficar no sofá degustando a melhor cerveja que deu pra comprar, que na verdade nem boa era, mas, ao menos, em grandes doses, a deixaria alta o bastante para dormir.",[10,26,27],{},"Campainha",[10,29,30],{},"Silêncio",[10,32,33],{},"Batidas na porta",[10,35,30],{},[10,37,38],{},"Campai…",[10,40,41],{},"-Caralho! Se eu não atendi na primeira vez, por que ia atender na vigésima sexta",[10,43,44],{},"A resposta à pergunta retórica, como manda o conceito da palavra, ficou implícita quando ela levantou cambaleante do sofá e se dirigiu a porta. Vencida pela insistência.",[10,46,47],{},"Fora um minuto inteiro para abrir a porta, este repleto de fechaduras repelentes de chaves, esquerdas que pareciam direitas e, por duas vezes, caras na porta.",[10,49,50],{},"Consagrando o fim da metade da noite as várias surpresas simultâneas. Primeiramente a luz do corredor que, aos olhos despreparados, deixava toda a situação mais etérea. Depois, o homem na porta ornando vermelho e branco dos pés a cabeça, literalmente. A barba branca enorme apoiada na barriga saliente, o saco vermelho nas costas e o sorriso bobo completavam o figurino do bom velhinho banhado a luz.",[10,52,53],{},"-Veio me mostrar a magia do natal? — Assim como o aniversariante da noite, a cerveja dá e ela tira. No caso da mulher, apoiada na porta por necessidade, a bebida dá sono e tira os filtros mentais para frases como essas. Mais tarde ela se condenaria por corresponder a essência clichê.",[10,55,56],{},"-Ha ha… Quero dizer, Ho ho. Me vesti assim pra fazer surpresa pras crianças do 307, moça. Elas adoraram, mas ai chegou a hora de comer e a gente não tinha faca pra cortar o peru, dai pensei se poderia emprestar uma…",[10,58,59],{},"Sobre chiches.",[10,61,62],{},"-Entra.",[10,64,65],{},"-Licença…",[10,67,68],{},"Qualquer um que entrasse naquele ambiente sombrio sentiria de súbito o estranhamento e questionaria a solidão, a escuridão e a taça caída derramando algo amarelo ao lado do sofá. Mas a noite havia sido tão longa quanto a barba falsa, as crianças irritantes e a fome fazia tremer a barriga por baixo da falsa de lençóis. Assim, seguiu quieto a mulher aparentemente bêbada pelo apartamento.",[10,70,71],{},"-Ficai na sala que eu já volto com sua faca.",[10,73,74],{},"Uma multidão de pensamentos tentava, sem nenhuma ordem, ter preferência na mente dela. Alguns eram deixados para trás por outros mais fortes, outros eram pisoteados e esquecidos, alguns davam as mãos por fazerem mais sentido juntos. Um deles começou a disputa por atenção tímido, retraído, mas foi ganhando força e deu a mão a ideia de tomar banho, depois a ideia de colocar uma música, depois a ideia de procurar uma camisinha. No fim, pegar a faca fora pisoteado.",[10,76,77],{},"Sentado na sala o homem não sabia o que fazer, já haviam se passado alguns minutos e ele podia jurar que aquele som era de um chuveiro funcionando a todo vapor. Fechou a porta da sala só para ocupar o tempo e imaginou aquelas crianças descontroladas afundando suas mãozinhas no peru pela falta de faca.",[10,79,80],{},"-Moça… — Gritou nervoso — Acho melhor eu ir indo, a gente da um jeitinho lá pra cortar.",[10,82,83],{},"A mente dela antes estava cheia de pensamentos, agora só havia o desejo. Repentino como só. Ele não iria embora, ela sabia, devia estar só nervoso, ela achava, deve estar pensando o mesmo que eu, ela esperava.",[10,85,86],{},"O que fora o bom velhinho encoberto de luz para a mulher, fora aquela cena para ele: saindo do escuro o branco da camisola curtissima se tornava vermelho, amarelo e azul. Na boca um sorriso meio sem jeito e na mão faca nenhuma. Olhando de fora poderia parecer a propaganda de natal da Jontex, isso se não fosse o figurino mal feito dele. Composto, ainda, pela expressão perplexa. Assim, parecia o fetiche de algum papai noel de shopping.",[10,88,89],{},"-Moça…",[10,91,92],{},"-Não quer saber se eu fui um boa menina esse ano? — Ela com certeza vai se arrepender de ter dito isso.",[10,94,95],{},"Ele estava assustado, mas o volume na sua calça vermelha não o deixaria mentir. Ele queria.",[10,97,98],{},"Ela foi se aproximando, ainda meio cambaleante, mas focada no objetivo que ela mesma explanara ao conhecer o rapaz. 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O homem fez o que foi mandado, mas antes de sair batendo a porta com a faca na mão deu uma boa olhada na mulher, que, ainda no chão, limpava o rosto com o papel higiênico. Melhor ficar com as crianças, concluiu.",[10,124,125],{},"Depois de alguns minutos ela não sabia se chorava de dor, decepção ou desabafo. Noite feliz ainda tocava. No chão o amarelo da cerveja prometia dinheiro, o vermelho sangue, amor, o branco higiênico paz, mas o transparente meio fosco das lágrimas anulava tudo isso. Prometia nada.",{"title":127,"searchDepth":128,"depth":128,"links":129},"",2,[],"md",{},true,"\u002Fqualia\u002Fcerveja-na-taca","2026-04-20","---\ntitle: \"Cerveja na taça\"\nwritten-at: 2015-12-22\npublished-at: 2026-04-20\n---\n\nO radinho de pilha com entrada USB exaltava, pela quarta vez seguida, a noite feliz pela voz de algum coral infantil carioca. Dava para perceber a origem do grupo pelo feliz chiado. No centro da sala o pequeno pinheiro brilhava, apagado, em meio ao clima do recinto. Dezenas de LEDs lutavam contra a escuridão da sala, forçando vermelhos, amarelos e azuis contra a alma da mulher que deitada em seu sofá tomava cerveja na taça. Afinal, era essa a composição prima do natal, transformar toda e qualquer ação em um ato especial, assim, a cervejinha migrara do copo de vidro mal lavado para a taça empoeirada. Especial. Tal composição destoava do ano novo ao passo que o objetivo do dia 31 era criar prelúdios para o ano novo: só se limpar com papel higiênico branco para que as cagadas feitas no ano que vem sejam de paz. Ao findar da música o silêncio tomou conta da sala e ali ele fez moradia por longos minuto. O relógio cuco de parede fez seu trabalho. Meia-noite declarada. Oficialmente Natal.\n\n— Parabéns Jesus — Levantou a taça de cerveja. — Eu traria um pouco de água pra você fazer sua mágica, mas não gosto de vinho.\n\nRiu sozinha de sua ironia, um riso triste que nasce da solidão, mais especialmente daquela regada a álcool, que sim, é um tipo especial de solidão a ser estudado. Talvez a pesquisa venha de alguma universidade americana para posteriormente ser divulgado como fato desconhecido no Facebook. Novamente um som invadiu a sala e como matéria sendo lançada no vácuo a onda de partículas vibrantes se espalhou soberana.\n\nA vida é feita em sua essência de duas coisas: escolhas e clichês. Não necessariamente nessa ordem. Assim, ela escolheu não atender a campainha para não passar pelo clichê “Oie vizinha, feliz natal! Deus te abençoe. Sabe, estamos cortando o peru, mas, olha que engraçado, a nossa faca tá cega. — risada forçada não correspondida pela interlocutora, seguida por um silêncio desconfortável — Então, tem uma faquinha ai pra emprestar”\n\nPareceu melhor ficar no sofá degustando a melhor cerveja que deu pra comprar, que na verdade nem boa era, mas, ao menos, em grandes doses, a deixaria alta o bastante para dormir.\n\nCampainha\n\nSilêncio\n\nBatidas na porta\n\nSilêncio\n\nCampai…\n\n-Caralho! Se eu não atendi na primeira vez, por que ia atender na vigésima sexta\n\nA resposta à pergunta retórica, como manda o conceito da palavra, ficou implícita quando ela levantou cambaleante do sofá e se dirigiu a porta. Vencida pela insistência.\n\nFora um minuto inteiro para abrir a porta, este repleto de fechaduras repelentes de chaves, esquerdas que pareciam direitas e, por duas vezes, caras na porta.\n\nConsagrando o fim da metade da noite as várias surpresas simultâneas. Primeiramente a luz do corredor que, aos olhos despreparados, deixava toda a situação mais etérea. Depois, o homem na porta ornando vermelho e branco dos pés a cabeça, literalmente. A barba branca enorme apoiada na barriga saliente, o saco vermelho nas costas e o sorriso bobo completavam o figurino do bom velhinho banhado a luz.\n\n-Veio me mostrar a magia do natal? — Assim como o aniversariante da noite, a cerveja dá e ela tira. No caso da mulher, apoiada na porta por necessidade, a bebida dá sono e tira os filtros mentais para frases como essas. Mais tarde ela se condenaria por corresponder a essência clichê.\n\n-Ha ha… Quero dizer, Ho ho. Me vesti assim pra fazer surpresa pras crianças do 307, moça. Elas adoraram, mas ai chegou a hora de comer e a gente não tinha faca pra cortar o peru, dai pensei se poderia emprestar uma…\n\nSobre chiches.\n\n-Entra.\n\n-Licença…\n\nQualquer um que entrasse naquele ambiente sombrio sentiria de súbito o estranhamento e questionaria a solidão, a escuridão e a taça caída derramando algo amarelo ao lado do sofá. Mas a noite havia sido tão longa quanto a barba falsa, as crianças irritantes e a fome fazia tremer a barriga por baixo da falsa de lençóis. Assim, seguiu quieto a mulher aparentemente bêbada pelo apartamento.\n\n-Ficai na sala que eu já volto com sua faca.\n\nUma multidão de pensamentos tentava, sem nenhuma ordem, ter preferência na mente dela. Alguns eram deixados para trás por outros mais fortes, outros eram pisoteados e esquecidos, alguns davam as mãos por fazerem mais sentido juntos. 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Descobrir a magia do natal.\n\nUma cena no minimo interessante, ela em seu colo beijando a barba branca postiça, ele pegando o saco vermelho, e jogando no chão para ter o sofá, ela arrancando o lençol da barriga, ele a camisola. Tudo isso ao som de noite feliz e seria uma noite deveras feliz.\n\nUma cena no minimo interessante que não aconteceu.\n\nMilésimos depois do som do estilhaço veio o grito dela. — Caralho, que porra foi essa? — Ela se jogou no chão segurando o pé ensanguentado e rolando sobre cerveja derramada.\n\n-Moça, eu…\n\n -Vai no banheiro e me trás o rolo de papel higiênico, depois passa na cozinha, pega tua faca e vaza.\n\n-Mas…\n\n-Mas o caralho, vai logo!\n\nDe assustado a excitado e atordoado. O homem fez o que foi mandado, mas antes de sair batendo a porta com a faca na mão deu uma boa olhada na mulher, que, ainda no chão, limpava o rosto com o papel higiênico. Melhor ficar com as crianças, concluiu.\n\nDepois de alguns minutos ela não sabia se chorava de dor, decepção ou desabafo. Noite feliz ainda tocava. No chão o amarelo da cerveja prometia dinheiro, o vermelho sangue, amor, o branco higiênico paz, mas o transparente meio fosco das lágrimas anulava tudo isso. Prometia nada.",{"title":5,"description":12},"qualia\u002Fcerveja-na-taca","2015-12-22","2XIq-VSeJ8iMOLGkrzGiuzLpVcN0NVQIS3aWms86rZ4",1776715314687]