[{"data":1,"prerenderedAt":118},["ShallowReactive",2],{"page-\u002Fqualia\u002Fo-mundo-continua-girando":3},{"id":4,"title":5,"body":6,"description":106,"extension":109,"meta":110,"navigation":111,"path":112,"published-at":113,"rawbody":114,"seo":115,"stem":116,"written-at":113,"__hash__":117},"content\u002Fqualia\u002Fo-mundo-continua-girando.md","O mundo continua girando",{"type":7,"value":8,"toc":105},"minimark",[9,16,19,26,29,32,35,42,49,58,65,83,89,99],[10,11,12],"blockquote",{},[13,14,15],"p",{},"Este texto é nasceu como um trabalho para faculdade de Estudos de Mídia",[13,17,18],{},"A febre passou. Não mais vemos crianças com as mãos ocupadas pelos fidget spinners e provavelmente grande parte deles já se encontra no lixo. 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No Brasil já virou brinquedo para animais, já estimulou reflexões particulares sobre formas de venda e críticas à entrada de produtos e da própria cultura do Outro no país.",[13,27,28],{},"A realidade é que o caráter intrínseco ao dispositivo de não ter função definida é muito propício para visualização das formas possíveis de apropriação por grupos e indivíduos e das lutas por significado. Pode parecer bobo se debruçar sobre algo tão fútil como uma máquina inútil, vista por muitos como brinquedo, porém a forma como esta se popularizou , sozinha, já é um tema rico para discussão. Por exemplo, o dispositivo foi o que mais se destacou entre uma leva de brinquedos para pessoas com transtornos psicológicos, brinquedos terapia. Nada mais sintomático.",[13,30,31],{},"Depois, as técnicas criadas pelas crianças para resistir a um sistema educacional ultrapassado que não necessariamente às representa e, por “fim”, a difusão que levou o produto a ser pensado enquanto nome em países do Sul.",[13,33,34],{},"Assim, acredito que, muito embora seja um dispositivo de particular simplicidade enquanto materialidade e mais ainda enquanto propósito, os contextos para os quais este fora direcionado posteriormente e as discussões levantadas, tendo este como plano de fundo, são de real importância e não devem ser ignorados por serem contextos de menor legitimidade.",[13,36,37,38,41],{},"O ",[22,39,40],{},"Fidget spinner"," é por definição uma máquina inútil, ou seja, um dispositivo que tem uma função, no caso girar, mas não tem um propósito específico. Feito normalmente de plástico, aço, titânio ou cobre, o objeto, de forma geral, é um conjunto, normalmente de dois ou três, pesos ligados a um rolamento independente no centro. Quando os pesos são movimentados começam a girar em volta do centro e é possível sentir as várias forças de rotação atuando no objeto.",[13,43,44,45,48],{},"A questão em torno da origem do spinner me chamou atenção. Após pesquisar em jornais e revistas descobri que o primeiro spinner criado foi concebido por Catherine Hettinger, estadunidense, quando a mesma viajou para Israel com objetivo de visitar sua irmã no final dos anos 80. Durante a viagem a inventora ouviu que crianças palestinas tinham costume de jogar pedras em policiais. Catherine pareceu não se importar com o motivo que essas crianças tinham para se utilizar de violência contra oficiais que deveriam protegê-las, ou mesmo com a simbologia que está atribuída ao ato de jogar pedras, pois, como disse a mesma, saber da ação das crianças lhe deu a ideia de criar um brinquedo para que elas pudessem gastar energia, se distrair e liberar a frustração. 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Assim, aquilo que a princípio serviria para aliviar o estresse no mundo corporativo acabou por ser repensado de formas extraordinárias. Crianças começaram a criar manobras complexas, fazer coleções, além de comprar e vender, o que para elas eram brinquedos. 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Não havia como Catherine Hettinger, primeira criadora do produto, imaginar que o mesmo seria apropriado anos depois como terapia para ansiedade, como brinquedo para todo tipo de criança, não apenas àquelas “frustradas” nos países do Sul e muito menos que o mesmo se tornaria um problema para algumas instâncias da sociedade. Porém, acredito que há algo de especial na utilização do produto como brinquedo para animais, pois é uma aplicação, em particular, inesperada e muito inteligente, sendo que ouvi que alguns vendedores fazem um preço diferenciado se o pedido for referente à animais. Um preço mais alto, no caso.",{"title":106,"searchDepth":107,"depth":107,"links":108},"",2,[],"md",{},true,"\u002Fqualia\u002Fo-mundo-continua-girando",null,"---\ntitle: \"O mundo continua girando\"\n---\n\n> Este texto é nasceu como um trabalho para faculdade de Estudos de Mídia\n\nA febre passou. Não mais vemos crianças com as mãos ocupadas pelos fidget spinners e provavelmente grande parte deles já se encontra no lixo. Mas o que esse fenômeno, agora visto a distância, pode nos ensinar sobre o mercado, cultura e as formas de resistência na atualidade?\n\n_Fidget spinners_ foram vendidos pela mídia como uma moda quase irracional entre as crianças e como um perigo potencial tanto para seu aprendizado na aula, quanto para sua convivência, sendo, inclusive, usado como mote para reclamar de um dos grupos de perigo atual, os millenials. Para além disso, virou tema de inúmeros memes, incontáveis vídeos no youtube e fotos em redes sociais digitais como Facebook e Instagram. É real, também, que os usos da máquina inútil não estão e nem poderão ser definidos de forma fechada. No Brasil já virou brinquedo para animais, já estimulou reflexões particulares sobre formas de venda e críticas à entrada de produtos e da própria cultura do Outro no país.\n\nA realidade é que o caráter intrínseco ao dispositivo de não ter função definida é muito propício para visualização das formas possíveis de apropriação por grupos e indivíduos e das lutas por significado. Pode parecer bobo se debruçar sobre algo tão fútil como uma máquina inútil, vista por muitos como brinquedo, porém a forma como esta se popularizou , sozinha, já é um tema rico para discussão. Por exemplo, o dispositivo foi o que mais se destacou entre uma leva de brinquedos para pessoas com transtornos psicológicos, brinquedos terapia. Nada mais sintomático.\n\nDepois, as técnicas criadas pelas crianças para resistir a um sistema educacional ultrapassado que não necessariamente às representa e, por “fim”, a difusão que levou o produto a ser pensado enquanto nome em países do Sul.\n\nAssim, acredito que, muito embora seja um dispositivo de particular simplicidade enquanto materialidade e mais ainda enquanto propósito, os contextos para os quais este fora direcionado posteriormente e as discussões levantadas, tendo este como plano de fundo, são de real importância e não devem ser ignorados por serem contextos de menor legitimidade.\n\nO _Fidget spinner_ é por definição uma máquina inútil, ou seja, um dispositivo que tem uma função, no caso girar, mas não tem um propósito específico. Feito normalmente de plástico, aço, titânio ou cobre, o objeto, de forma geral, é um conjunto, normalmente de dois ou três, pesos ligados a um rolamento independente no centro. Quando os pesos são movimentados começam a girar em volta do centro e é possível sentir as várias forças de rotação atuando no objeto.\n\nA questão em torno da origem do spinner me chamou atenção. Após pesquisar em jornais e revistas descobri que o primeiro spinner criado foi concebido por Catherine Hettinger, estadunidense, quando a mesma viajou para Israel com objetivo de visitar sua irmã no final dos anos 80. Durante a viagem a inventora ouviu que crianças palestinas tinham costume de jogar pedras em policiais. Catherine pareceu não se importar com o motivo que essas crianças tinham para se utilizar de violência contra oficiais que deveriam protegê-las, ou mesmo com a simbologia que está atribuída ao ato de jogar pedras, pois, como disse a mesma, saber da ação das crianças lhe deu a ideia de criar um brinquedo para que elas pudessem gastar energia, se distrair e liberar a frustração. A primeira ideia fora de criar algo que parecesse uma pedra, mas fosse macio, porém, voltando para casa mudou de ideia e, ainda em cima do conceito de um brinquedo que pudesse distrair e liberar frustração, desenvolveu o _spinner_. Hettinger registrou a patente de sua criação de 1993, porém não conseguiu dinheiro para iniciar a produção e nenhuma representante da indústria dos brinquedos comprou a ideia. Em 2005 a patente expirou e não vendo futuro para seu projeto Catherine decidiu não renovar a mesma.\n\nCom uma nova roupagem funcional o _spinner_ começou a ganhar o mercado no final de 2016 junto a uma série de outros dispositivos que, teoricamente, seriam benéficos à pessoas com déficit de atenção, hiperatividade ou ansiedade, tais como o _fidget cube e a stress ball._\n\nOs _fidget spinners_ conquistaram consumidores adultos, sendo considerado um brinquedo de escritório e custando em média 40 dólares a unidade, contudo, em poucos meses, fora apropriado por estudantes nas escolas fundamentais do Reino Unido, tornando-se um febre. Com o aumento da demanda pelo produto e os demais processos mercadológicos que englobam a produção, distribuição e aceitação de um produto pelo seu público, o valor por unidade caiu para 1 dólar.\n\nA diminuição drástica do preço nos países do Norte global levou, por consequência, a uma difusão ainda mais poderosa do produto tanto dentro dos territórios do Norte como para fora dele. Em relação ao contexto de venda do, no começo apenas um site disponibilizava o produto, porém chegou a ser possível encontrar _spinners_ em todos os lugares e sendo vendido pelas pessoas mais variadas. Certa vez, saindo de uma das estações de metrô do Rio de Janeiro, me deparei com dois homens, um de meia idade, aparentemente, e outro idoso. Na frente deles uma mesa dobrável simples lotada de _spinners_. Tive tempo, por conta da multidão saindo e entrando na estação, de ouvir parte da conversa dos homens. O mais velho perguntou algo como “como é que fala isso? É _spini?”_ e o mais novo respondeu pacientemente “É só ficar com ele na mão girando e falar que é o brinquedo do momento”. Este diálogo em torno do nome do dispositivo, foi para mim muito representativo e, de certa forma, um dos motivos que me levaram a produzir este trabalho. Para falantes do português sem introdução formal à língua inglesa, _fidget spinner_ pode ser uma frase assustadora, porém estes homens estavam tentando contornar a situação como podiam, se utilizando de táticas (CERTEAU, Michel, 1998), as quais, ao meu ver, foram deveras inteligentes.\n\nMuito embora fosse um brinquedo de escritório, logo, destinado ao público adulto, rapidamente virou febre entre as crianças, tornando-se, inclusive, um problema e sendo proibido em escolas de vários estados nos Estados Unidos e na Inglaterra. Assim, aquilo que a princípio serviria para aliviar o estresse no mundo corporativo acabou por ser repensado de formas extraordinárias. Crianças começaram a criar manobras complexas, fazer coleções, além de comprar e vender, o que para elas eram brinquedos. A mesma máquina inútil vendida como chave para acalmar a ansiedade no mundo corporativo se tornou mote para criação de um rede de significados entre as crianças que extrapola em muito o motivo inventado, o qual aliás fora desmentido por especialistas, sendo que é mais provável que um _spinner_ seja prejudicial a pessoas com problemas de concentração.\n\nContudo, há necessidade de olhar com mais atenção o propósito inicial e como ele cria uma ambivalência (BAKHTIN, Mikhail, 1987) na materialidade do _spinner._ Naturalmente, as escolas seguidoras de modelos mais tradicionais de educação não recomendam, impedem, o ato de levar brinquedos para aula, com a desculpa dos mesmos levarem à distração. Contudo, ao passo que os _spinners_ eram vistos pelos adultos como um não brinquedo, ou seja, como uma espécie de decoração funcional ou até mesmo terapia, as crianças se sentiram permitidas de levar os dispositivos para aula, mesmo que as mesmas os vissem como brinquedos. Ao conhecer a visão dos adultos, inclusive professores, relativa aos dispositivos, as crianças puderam se apropriar da ambivalência criada e desenvolver táticas levando o que elas entendiam como brinquedos para escola. Hoje essa tática já não é mais uma possibilidade ao passo que os adultos consideram a visão infantil sobre o produto.\n\nUma terceira possibilidade de apropriação dos _spinner_, a qual aconteceu de forma particular no Rio de Janeiro é a compra do dispositivo com intuito de ser brinquedo para animais, principalmente gatos. 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